As estratégias e a educação

8 março 2013, Comentários 1

madame-monet-and-childTenho refletido sobre o valor da estratégia. Sabe, a estratégia tem a ver com a experiência de vida. Hoje cheguei a uma conclusão: a prática traz aprimoramento de estratégias.

Fui lavar os meus cachorros. Escolhi a minha roupa mais surrada, a sandália mais lavável – e firme no pé, e examinei as possibilidades para lavar os meus dois cachorros. Não são cachorros muito grandes, também não pequenos – o que teria facilitado muito a tarefa. Mas enfim, dia de sol, meu marido tinha providenciado um sabão próprio, era a hora.

Enchi cinco baldes de água e quebrei o gelo para não matar os cachorros de susto – afinal fazia já um bom tempo que eu não os lavava. Eles não são propriamente obedientes, portanto precisava contar com um espaço do qual não conseguissem fugir enquanto os tivesse ensaboados, e mais, depois de um limpo, eu tinha que enxugá-lo antes de deixá-lo voltar ao convívio com o sujo. E, depois de ambos limpos, cuidar que o Alfa não batesse no outro – ah, sim, dois cachorros já constituem uma matilha.

Lavei o primeiro com sucesso, embora tenha tido dificuldades de alcançar as patas traseiras, e o sabão sumir de vez em quando – e eu tinha que buscá-lo às apalpadelas, embaixo do cachorro e me molhando toda.

Com o segundo cachorro minha estratégia já melhorou, travei a traseira do cachorro com um banquinho e deixei o sabão mais a mão. Aí eu o lavei com muito maior rapidez e eficiência.

A estratégia tem a ver com discriminação de objetos e meios para se conquistar uma meta. Com economia de material e movimentos, com sucesso e eficiência. Somos naturalmente levados a criar estratégias para tudo. A partir das nossas experiências vamos alinhando em nossas memórias como em um banco de dados as inúmeras tentativas de se cumprir as metas da nossa vida. E isto inclui tudo, todas as tentativas incluindo os erros, as causas e as consequências de cada ação.

Não discrimine nada: sair da cama, escovar os dentes, dar um nó na gravata, abotoar a camisa, tomar banho, tirar o carro da garagem. Tudo exige uma estratégia que consiste também em uma seleção de movimentos naquele momento. As vezes saímos com o carro medindo a distância do muro paralelo, as vezes calculamos pelos espelhos. Para atar o relógio ao pulso apoiamos o braço no próprio relógio e conseguimos passar um lado da pulseira pela fivela, e assim vai.

Como é uma seleção natural e constante, vamos determinando um conjunto de estratégias como as ‘top 10’, e nunca deixamos de usá-las. Isto nos torna rápidos mais que sempre. No final das contas, no entanto, isso termina por nos tornar duros e ineficientes, porque as coisas mudam a cada pouco: você vai mudar de carro ou de casa e aquela estratégia de saída se tornará obsoleta – cuidado!

Do mesmo modo usamos estratégias para pensar, para lidar com nossos sentimentos e com nossos relacionamentos. Para isto usamos de refinadíssimas estratégias que já ganharam muita popularidade e até nomes: a birra, a sedução ou a diplomacia, entre outras.

É claro que para ancorar-se em uma estratégia ela deve ter sido muito eficiente mais de uma vez. Se por acaso ser birrento traz sucesso com os pais sempre, esta estratégia vai ser usada com os avós, com os vizinhos e com os professores. E só vai haver a desistência do uso desta estratégia quando repetirem-se para a pessoa muitas vezes as falhas. E vai a uma tal sensibilidade o uso das estratégias, que podem ser mantidas onde funcionam e abandonadas onde não conquistaram a meta.

Sim, pois são os insucessos o termômetro que mostra a exigência da adoção de novas estratégias. Como bater o carro no portão, por exemplo, na saída com seu carro novo, ou romper um casamento por irresponsabilidade – talvez estas últimas experiências sejam um pouco mais drásticas do que receber um firme ‘não’ por várias vezes e de diversas bocas quando se estiver fazendo birra.

Enfim, o ser humano com sua brilhante inteligência e sabedoria é capaz de auto-educação e isto desde muito cedo. O que a gente que está em volta pode fazer é dar bons parâmetros, isso para que tenhamos a nossa volta pessoas com quem valha a pena conviver. Colaborar na educação, ao invés de reclamar da falta de educação.

Como é que se faz isso? Ora, cada um sabe com que companhia vai querer conviver pela vida toda, quem quer que seus filhos sejam, com quem quer que eles se relacionem, como quer que o mundo esteja quando estiverem nascendo os netos de seus bisnetos.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Ana Maria Miranda

    Como diria a vovó Quininha:_” Perdidas as que levantei”, referindo-se às palmadas que aplicava nos filhos.