As encomendas

14 março 2013, Comentários 2

apontar-os-dedos

Tenho colecionado frustrações na vida. Mortes, demissões, perdas. Não tenho a pretensão de que as minhas frustrações sejam maiores ou mais intensas do que as de qualquer outra pessoa. Nós nos frustramos e dói. Ponto. Mas existe uma questão que sempre me cutucou em relação às perdas. Por que temos sempre que apontar os culpados pelas perdas que a gente sofreu? Quem de nós não carrega uma responsabilidade como esta?

Você poderia me dizer: “mas em se tratando de um atropelamento, o sujeito que dirigia é o culpado, trata-se de um assassinato! Em se tratando de eutanásia, também, de suicídio, também! E além dos crimes e dos acidentes, existe o erro médico, a inépcia, existe o descuido!” “Não,” você diria, “sempre tem um culpado!”

Eu tenho a impressão de que se fôssemos capazes de esquecer os eventos e os culpados, seríamos capazes de conversar com estas pessoas com a maior tranquilidade do mundo. Eu mesma fiquei tão triste com um evento da minha vida que não queria mais ver ou ouvir falar das pessoas que estavam envolvidas nele. Sempre que eu me lembrava do evento ou de qualquer uma delas despertava em mim uma sensação terrível de amargura e de tristeza. Mas já faz tanto tempo que isto aconteceu que eu não me conformo de sentir isto cada vez e repetidas vezes.

Acabei por sentir medo de me encontrar com estas pessoas, de frequentar os mesmos lugares que elas, de conversar com os amigos que tinham alguma relação com elas. Resolvi rechaçá-las da minha vida definitivamente.

Honestamente, esta foi uma das decisões mais sábias da minha vida. Enquanto eu não coloquei estas pessoas no fundo do baú de um paiol fechado e escuro da minha mente, eu sangrei. Veja, toda a ferida cicatriza se a gente não ficar mexendo nela. É uma lei a regeneração. Assim aconteceu comigo.

Depois de um tempo, e bem aos poucos eu fui podendo ver algumas pessoas daquele meio novamente, pude mencionar o evento e conversar sobre ele, e a coisa mais interessante que eu observo é que eu me tornei uma pessoa completamente diferente porque eu abandonei o meio em que eu vivia naquela época. Não existe mais nada daquilo, nem as pessoas querem dizer o que queriam antes. Mudou o seu significado no meu mundo e na minha vida.

Eventualmente eu me ressinto porque ainda colho asperezas de pessoas novas que falam comigo pela primeira vez depois do tal acontecido. Recebo de alguns apoio e de outros críticas. É natural. Não foi bem no começo, mas eu consegui reconhecer com alguma clareza a responsabilidade direta de uns, as mãos de Richelieur de outros, e me deu enjoo pensar na confiança que eu depositava naquelas pessoas.

Então eu vi culpados, e determinei que entre todos eu poderia separar os culpados ativos dos cúmplices, eu apontar em cada um a sua vileza para comigo.

Depois eu me lembrei de uma frase que eu sempre repito: ninguém quer ir dormir pior do que acordou. Ninguém planeja ser ruim. Na verdade, a maioria de nós tem um relacionamento com o Mal de cuidado e não de entrega. Ninguém deseja o mal de ninguém. Muito poucas pessoas se esmeram na construção da desgraça dos outros e todos os dias — mesmo os mais egoístas — querem ser melhores do que eram no passado.

E fazemos o mal para os outros. E tentamos fazer melhor – se nos apercebermos de que aquilo que fizemos feriu ou comprometeu em alguma medida a outra pessoa. Mas precisamos reconhecer que as pessoas que nós acusamos de malfeitores são os mesmos que conhecemos antes – seres humanos empenhados em crescer e servir sempre.

Isto me fez rever a minha lista. Depois me veio outra coisa: cada um acha suas razões para agir de uma maneira ou de outra. O mal fazer pode ser gerado porque não sabíamos outro caminho para realizar um intento. Precisamos usar um trator porque lidávamos com uma muralha. Se por acaso derrubar a muralha feriu quem estava em volta foi uma consequência não planejada. Não foi maldade.

E ainda tem uma outra lembrança que me deixa livre: não é minha responsabilidade a condenação de ninguém. Na Bíblia se diz que cada um pagará com sua própria moeda. Eu acho que é assim, mesmo. Não sou eu quem vou dizer: faça 15 flexões, reze 3 Ave Marias. Cada um sabe de si.

E finalmente, é preciso dar crédito aos orientais que percebem que tudo o que eu estou recebendo são encomendas que fiz: Não me cai no colo – nem um ramalhete de flores nem uma pedra, se eu não o mereço. A gente só tem que agradecer – o que é a parte mais difícil!

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • insistimento

    “Nós não precisamos deixar as coisas irem, nós simplesmente não temos que segurá-las”, Joseph Goldstein e “O grande problema da humanidade é a incoerência” resumem bem esse sentimento humano de culpa e medo.

  • Ana Maria Miranda

    krishnamurti disse que a gente é pretenciosa de pensar que os outros se ocupam conosco.De fato cada um está tão voltado para seu umbigo que não vê o que está se passando com o outro.