Artigo Richard Smith

24 fevereiro 2015, Comentários 0

SÁBADO, 21 DE FEVEREIRO DE 2015 11:02

Câncer é a melhor forma de morrer,
diz médico britânico
“Você pode dizer adeus, refletir sobre a vida, deixar 
mensagens, visitar lugares especiais pela última vez,
ouvir as músicas favoritas, ler poemas e se preparar,
de acordo com suas crenças, para encontrar seu
criador ou curtir o esquecimento eterno.”
Essa é a visão romântica da morte por câncer,
“atingível com amor, morfina e uísque”. Com ela, o
médico britânico Richard Smith, 62, ex-editor da
prestigioso periódico médico “British Medical Journal”, causou uma polêmica
de proporção global no início deste ano, quando publicou um texto sobre o
tema.
“A reação foi maior do que qualquer coisa que eu tenha escrito em 40 anos”,
afirma.
Richard Smith falou com a Folha, a respeito da polêmica, do “gasto
excessivo” com pesquisa relacionada a câncer e de um projeto que visa
melhorar a atenção básica a saúde, a ser implementado no Brasil, do qual
participa.
Neste projeto, chamado de Pack Adulto, a ideia é treinar profissionais da
saúde para que possam realizar a atenção primária em saúde de forma barata
e eficiente, adaptando um modelo já utilizado na África do Sul.
Veja abaixo a entrevista.
Folha – O senhor disse recentemente que a melhor maneira de
morrer é pelo câncer. Como foi a repercussão? Você esperava
tamanha atenção?
Richard Smith – A reação a isso foi maior do que qualquer coisa que eu
tenha escrito em 40 anos de jornalismo médico. Foi uma reação global, e
muitas pessoas, particularmente aqueles cujos parentes sofreram e morreram
de câncer, se sentiram compreensivelmente ultrajados. Até mesmo recebi
ameaças de morte. Não esperava tanta atenção, já que eu estava escrevendo
principalmente para médicos.
Mas o senhor não estava tentando convencer o público em geral
(ou aos médicos e cientistas) a não procurar uma cura para o
câncer?
Não, mas eu penso que muito dinheiro gasto em pesquisas de câncer poderia
ser melhor gasto pesquisando, por exemplo, neurociência, demência e
problemas de saúde mental. Eu não penso que algum dia cheguemos a curar
todos os cânceres. Muitos oncologistas e biologistas moleculares concordam.
Em algum sentido, o câncer faz parte da gente.
O senhor acha que dinheiro demais é gasto na pesquisa de câncer?
Sim. De várias maneiras o câncer se tornou uma bênção para biologistas
celulares e moleculares: eles ganham muito dinheiro para fazer pesquisa
básica [que busca o entendimento de um fenômeno, não tendo em vista uma
aplicação imediata]. Não sou contra a pesquisa básica, mas eu gostaria de ver
mais honestidade e menos propaganda quando falam da significância da
pesquisa.
O senhor acha que médicos geralmente discordam dos pacientes
sobre a melhor maneira de morrer. Como?
Muitos médicos concordam comigo de que câncer é a melhor maneira de
morrer.
Existem essencialmente quatro maneiras: morte súbita, que vem se tornando
pouco comum; de demência, uma morte lenta; de falência dos órgãos, que é
geralmente uma morte imprevisível; e por câncer, em que o declínio final
ocorre ao longo de semanas, dando tempo para despedidas e toda sorte de
preparativos.
Médicos geralmente insistem em tratar os pacientes por tempo demais, mas
muitos deles mesmos optam por um tratamento menos agressivo quando é
com eles.
Poucos médicos querem, por exemplo, morrer na UTI, onde cada vez mais
pessoas morrem em uma morte técnica e sem alma.
O senhor é religioso?
Não. Sou ateu, mas eu me interesso por religiões. Eu gosto de pensar que eu,
como tudo mundo, tenho um lado espiritual, que se manifesta para mim
através da música, poesia, e longas caminhadas em meio à natureza.
As pessoas muitas vezes tentam não pensar a respeito da morte. O senhor
acha que isso traz mais mal do que bem?
Eu tenho certeza que nunca pensar a respeito da própria morte faz mal. Os
filósofos estoicos, como Sêneca, mostraram claramente que contemplar a
própria morte não só leva a uma morte melhor como a uma vida melhor. Uma
aceitação por inteiro da morte significa uma vida plena. Para mim a morte dá
significado à vida. É um ciclo natural.
Além disso, pessoas que nunca pensam na morte geralmente estão mal
preparadas quando ficam doentes e próximas dela. Eu acho que todas as
pessoas devem ter de modo claro o que quer que aconteça com elas quando a
morte se aproximar.
O que é o projeto em que o senhor está envolvido no Brasil?
É um projeto que busca melhorar o atendimento primário em áreas em que
há poucos médicos. É um pacote chamado de Pack Adulto, [algo como Guia
Básico para Cuidados de Saúde] e foi desenvolvido na Universidade da Cidade
do Cabo por 14 anos e que tem mostrado em ensaios randomizados que é
possível melhorar a qualidade da atenção primária à saúde.
O pacote é usado em toda a África do Sul (um país que tem similaridades
como Brasil) e consiste em estabelecer algumas normas de conduta, com
treinamento local, focado no trabalho em equipe e em prescrição não médica.
Há um interesse global nesse pacote, mas ele não pode simplesmente ser
transplantado da África do Sul para outros países. Ele tem que ser local, e
Florianópolis é o primeiro lugar no mundo, fora da África do Sul, a testar
maneiras eficientes de custear a adaptação dessas medidas.
Nossa esperança é que o trabalho possa trazer benefício para pessoas mais
pobres e de áreas mais remotas no Brasil assim como em outros países.
O Brasil é pioneiro, e esse é um exemplo do que eu quis dizer com
implementar soluções simples e efetivas de assistência à saúde.
Qual o problema que vocês estão querendo resolver e que
resultados vocês esperam?
O problema é a fraca atenção básica em áreas mal servidas, além da
quantidade reduzida de médicos. Nós esperamos que o Pack Adulto possa
trazer atenção básica de qualidade a todos no Brasil. É bem sabido que
atenção primária de qualidade significa melhor cuidado a um baixo custo.
O senhor pensa que a formação dos médicos é adequada?
O treinamento de médicos tem que mudar na medida em que os padrões de
doenças mudam. Nós vivemos em um mundo de pacientes, a maioria idosos,
com múltiplos problemas, muitos crônicos, como diabetes ou hipertensão.
O modelo quando eu estava na faculdade, nos anos 70, era “diagnóstico,
tratamento e cura”. Quando alguém tem meningite, esse é o modelo: o que o
médico faz determina se o paciente sobrevive.
Mas hoje o diagnóstico é menos importante porque nós, em geral, já sabemos
o que os pacientes têm, e o tratamento depende mais deles que do médico:
mudanças no estilo de vida e adaptação às condições impostas por doenças
crônicas. Há pouca cura, a maioria das doenças ficarão presentes por toda a
vida.
RAIO-X – Richard Smith
IDADE
62 anos
FORMAÇÃO
Médico pela Universidade de Edimburgo em 1976, com mestrado pela
Universidade Stanford em 1990
ATUAÇÃO
De 1991 a 2004, foi editor-chefe da revista científica ‘British Medical Journal’.
É professor no Imperial College de Londres. Dirige ONGs voltadas a direitos
de pacientes e à saúde em países pobres.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.