Arte final

Categoria Educação
11 novembro 2013, Comentários 0

1024px-Turner-Brennendes_Schiff-1830Sabe estas pessoas fantásticas que sobressaem entre as outras e que todo mundo dá o nome de artista? São admiráveis porque têm o hábito estranho de não enxergar o mundo com os mesmos olhos que nós. O que para nós é um pedacinho de pau ou papel, o sujeito fotografa e se torna uma extraordinária paisagem. Outro une o movimento de corpos dançando com efeitos de luz e surge alguma coisa absolutamente original e interessante. Outro, um mais tradicional, vai tomar de tintas e tela e inaugurará um universo em 50 centímetros quadrados. Os artistas exercem este papel de Deus o tempo todo. Músicos são o meu fraco. É simplesmente impossível não se abalar por uma composição musical. Tão impalpável, tão efêmera, e ao mesmo tempo tão absorvente que leva a gente embora na nossa consciência – vítima completa do artista.

Há tantos artistas que se embrenham no meio das artes e acham entre elas conversas novas, olhares fundadores de mundos, uns que a gente não pode nem nomear. E o interessante a respeito do serviço que presta o artista é que ele não inventa matéria nova. Não. Ele usa o que já está por aí, disponível. Você pega todos os dias em objetos sem reparar na graça que eles têm guardadas embaixo da sua funcionalidade. Grampeador é grampeador, cabelo é cabelo. Mas o artista adivinha possibilidades em cada uma delas. E faz disso um espetáculo.

As pessoas nascem artistas. Sim, há os que estudam para serem bons pintores, bons escultores, bons músicos, mas não se engane. Ser artista não é possível recebendo uma comenda ou um diploma. A arte é um composto espiritual que vaza para o corpo. A pessoa vem com um corpo parecido com o seu, olhos, orelhas, mãos e tal, mas dentro de cada célula, nas proporções, nos comprimentos, lá está esta característica indefinível da arte pulsando dentro dele.

O interessante que ser artista é diferente de praticar arte. Isto é importante destacar. A arte permeia tudo. Qualquer ser humano é capaz da arte, e diga-se de passagem, muitos desperdiçam a oportunidade da arte porque pensam que não ser artista é um impeditivo. Não é.

Arte é como brincadeira. Simplesmente não existe uma meta a se alcançar, não existe um errar no fazer da arte. A arte permite que você se destaque no tempo e no espaço. Muitas das leis da matéria que nos oprimem no dia a dia são suspensos no processo da arte. Isto é maravilhoso. Terapêutico, como muitos podem atestar.

Eu tive a sorte de poder fazer arte desde há bastante tempo no correr da minha vida. Eu aproveitei intensamente escrever – poesia e prosa e o texto agradável que fica no meio disso; pude pintar de muitas maneiras diferentes – pintar com tinta e pintar com luz; pude desenhar – não dá nem para nomear quantos recursos para desenho que eu pude experimentar; e cantar – que maravilha! e dançar, e até tocar alguns instrumentos. Não, eu não sou um gênio, não, eu sou gente e só. E cada um de nós é capaz de aproveitar a graça da arte. Não pode perder a oportunidade.

Agora, se um artista começa a se dedicar a fazer arte, aí a humanidade estremece. Ele vai carregar a matéria com que trabalha de uma sacralidade, de um efeito que vai tocar as pessoas de uma modo todo especial. É como se alguém, a cada vez, descobrisse como fazer pão – o trigo não passa de um matinho, de uma graminha espalhada por aí. De repente vem um sujeito, esmaga os grãozinhos secos, mistura na água e assa. Entende? O sujeito faz pão! Uma coisa que não existia e que de agora para diante existe. É a invenção de um mundo novo, de parâmetros novos, de expectativas, de códigos!

Bom, o pão a gente come, mexe com a barriga. A arte mexe com alguma coisa além. Mexe com o belo, empurrando o belo para lá e para cá. Seja com o barro seja com o trombone, é na matéria.

Recentemente eu descobri que existe um outro tipo de arte. Uma arte como a música, que se estende no tempo, e sua matéria é a gente mesmo. É barro compactado que todo mundo tem que transformar com o correr dos anos. Todo mundo o faz, é inevitável. Bonito quando termina e a gente descobre que aquela vida era a vida de um artista, e vai causar impacto na humanidade. Para sempre.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.