A Arte e a Perfeição

1 fevereiro 2014, Comentários 0

Freedom Zenos Frudakis

A graça de se criar uma palestra reveladora ou uma aula em que as pessoas se transformam está na arte. Pode ser a aula mais despretensiosa, o professor precisa visitá-la de antemão, ‘armar’ as imagens, prever as perguntas, conter o que é evidente e deixá-la interessante, surpreendente, envolvente.

Talvez todas as profissões do mundo precisassem deste apelo à originalidade e a criação. E eu penso: tem! Mas as profissões são obras de linguagens diferentes. Há obras que se realizam como um desenho no papel com poucas linhas – poucos minutos e lá está. Há obras que requerem cinzel e muito tempo. E vão se transformar em beleza acabada no fim de um processo de meses ou anos.

O que é a vida de um agricultor quando ele se envolve com o processo da criação dos espaços, da adequação do solo, da combinação das plantas, dos tempos de plantio e colheita próprios, da relação com os insetos polinizadores e predadores?

O que é a vida do estofador quando ele consegue compreender a direção da tecelagem, a disposição das estampas sobre aquilo que deve cobrir? O que significa para um estofador compreender a tensão correta, a pense, a dobra, o modo de se esconder as bordas?

O que é a vida de um empalhador quando ele abandona os desenhos aprendidos e passa a criar em conformidade com o desenho imprimindo novos padrões?

A vida desses profissionais passa de um estágio de exercitar para um segundo estágio que é o da criação, do conhecimento profundo dos movimentos que estão por trás da repetição infinita. O profissional se torna um artista naquilo que faz. Não existe mais obediência, mas maestria.

E o interessante é que a maestria não significa que se seja bom a ponto de poder ensinar tudo, mas passa-se a ser bom a ponto de abandonar as cartilhas. Passa-se a querer experimentar, ousar fazer o que é diferente e único.

De repente a vida das pessoas passa a trazer esta pergunta: como é não repetir, não imitar, não refazer? Como seria tomar este trabalho como uma janela para dentro de mim mesmo e descobrir até onde eu posso ir apoiado somente em minhas próprias forças?

De repente, por mais sério e reto que se queira ser, já não é suficiente repetir e produzir um trabalho ‘impecável’, é preciso ir além e abandonar o que já se sabia e dar passos fora da trilha. É preciso abrir caminhos que nunca ninguém trilhou.

Neste momento ninguém se pergunta: ‘será que alguém já fez isto antes’, porque não importa. Importa é que se está absolutamente atento a tudo o que tem relação com a criação no seu trabalho. Tudo passa a importar e ter um significado e já não se aceita a ideia de que uma coisa tem que vir antes da outra, mas é preciso conhecer os processos e escolher sua ordem.

O processo já está tão aprendido que os músculos o conhecem. Cada parte do nosso corpo, independentemente da que usamos para fazer o que fazemos sabe o que fazer – ainda que seja algo completamente parado como é o escrever, somente ou fazer contabilidade. Mas após vinte anos, talvez, não é possível mais repetir.

E o inacreditável, o mais interessante é que a  humanidade que nos preenche garante a total originalidade. Simples como ser único e não discutir – não se acha outro de mim por aí – simples como aceitar que cada um está em si mesmo e inteiro – simples assim é compreender que cada um pode a seu tempo passar a ser um mestre da sua própria arte. Que vai fazer obras particularmente originais e que vai realizar – não nas obras, mas em si mesmo – perfeição.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.