Aqui há parede

4 abril 2013, Comentários 0

BBC209886Se você é uma destas pessoas que por muito cuidado não quer nunca incomodar os outros. Se você é do tipo que não retruca uma grosseria. Se você não impõe jamais uma vontade sua para não ferir a liberdade alheia, então talvez nós estejamos abrindo aqui uma excelente reflexão que pode certamente influenciar como a gente age na vida de agora em diante.

Bom, eu sempre me encolhi fisicamente para deixar os outros passarem. Fisicamente e também animicamente. Eu nunca quis que as pessoas se sentissem pressionadas por mim a mudar de opinião, por exemplo. Nem quis que mudassem seus princípios, porque eu acredito muito na força interior que cada um carrega e acredito que esta mesma força é o que irá aos poucos e em todos, encaminhando por melhores modos de ser.

Bom, durante minha vida inteira eu fiz isso. Mesmo quando eu vi que se eu falasse ou mostrasse uma certa ‘prova’ as pessoas poderiam mudar de ideia a meu respeito, eu fiquei calada. Confiava na moralidade, na vontade coletiva de sermos melhores e muitas vezes, no fim, eu me estrepei. Hoje não fico repetindo que foi injusto, nem acredito nisso. Mas vejo que em certos momentos é preciso dar limite para movimentos sociais, para ideias tortas, para ações maldosas. Dar limite não é como antes eu pensava, uma necessidade de quem lida com crianças pequenas: “não machuque o bichinho!” “Não grite com o seu irmão.” “É hora de dormir.” “É hora de tomar banho.” Descobri que também na vida adulta as pessoas vivem precisando de limite.

Na minha vida eu percebi isto com clareza e recentemente acordei que é preciso ensinar também aos nossos filhos que as pessoas iguais a nós tem que conhecer em nós seres inteiros, resistentes, firmes, convictos e respeitáveis.

Na escola já, durante o convívio entre colegas podemos assistir aqueles que chantageiam os outros ameaçando a perda da amizade, de um objeto ou da afeição coletiva. Podemos achar graça das ameaças infantis das crianças umas sobre as outras e da ingenuidade da vítima que negocia algo que nunca foi dela – a amizade, por exemplo, para permanecer junto daquele algoz que no fim vive a torturá-lo.

Esperamos que a experiência ensine. Muitas vezes ensina a ambos, e isto é uma sorte. Agora, olhe para a sua própria vida e veja como você reagiu quando um amigo seu o ameaçou de qualquer coisa e por qualquer motivo. Você se impôs ou se encolheu? Isto tem a ver com um problema grave de baixa auto-estima que pode paralisar completamente uma pessoa e desarticular todas as suas relações sociais.

Quando eu me encolhia na minha infância para deixar passar uma pessoa grosseira eu imaginava que com o tempo esta pessoa teria oportunidade de perceber quão inconveniente era aquela sua atitude e modificar por completo seu modo de ser tornando-se uma pessoa suave e gentil. Mas a gentileza não é algo inato e também, nem todo mundo tem a oportunidade de aprender tal coisa na vida. Mas o que é mais importante aqui: a pessoa que se encolhe quando a grosseira passa não cumpre um papel fundamental no crescimento da outra que é o de dar limite.

Despertei também para a realidade de que quem se encolhe pode não estar se encolhendo sempre por nobreza e confiança, mas por medo.

Enfim é necessário tanto dar os limites quanto ensinar gentileza aos nossos filhos e alunos. Mas muito mais que isto, precisamos mostrar para eles o quão importante é a manutenção do limite, e a reapresentação do limite para manter as pessoas conscientes e ajustadas. Isto inclui na sua vida namorados ou namoradas, amigos, vizinhos, colegas, irmãos, enfim, todos os seres humanos com quem você se encontrar, porque trata da manutenção do respeito por todos por toda a vida.

Assim na nossa sociedade – fundamentalmente competitiva e pouco amorosa, aliás – precisamos estar livres para dar e perceber limites, afinal é um serviço que prestamos uns aos outros. Que exista a conversa:

— Perceba: aqui há parede, daqui não se pode passar.

— Eu vejo. Obrigado pela dica!

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.