Ancorar

14 fevereiro 2014, Comentários 0

eugenio zampighi neta e avóCrianças não erguerão prédios, não farão carros, não abrirão fundações. Crianças não vão fundar escolas nem vão conseguir conter catástrofes. Crianças precisam ser cuidadas, preservadas mesmo enquanto são provocadas a conhecer o mundo de uma maneira ordenada como vai acontecendo nas escolas.

Mas por que é que as crianças não vão fazer tais maravilhas, ou inventar coisas melhores ainda do que estas? Porque elas ainda não estão prontas. As crianças – veja bem como nós s chamamos: crianças! Elas ainda estão sendo criadas – e por nós.

Gosto de lembrar de Paulo de Tarso – um discípulo tardio de Jesus que até foi seu contemporâneo. Eu imagino que certa ocasião ele se encheu de ouvir os caras da igreja de Corinto reclamarem de coisas pequenas, e diplomaticamente falou para eles do amor. Você deve conhecer aquele discurso lindo que virou até pedaço de música nos anos 80: ‘Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine’…

Nesta mesma carta, lá adiante, Paulo coloca um trecho que dá a impressão que virou completamente de assunto. Esqueceu que o foco era o amor e diz assim: ‘Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.’

Eu penso que ele coloca este trecho como um exemplo do que ele diz imediatamente antes: ‘Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.’ Como quem diz: tudo o que se faz quando a gente é menino se faz como treino, é provisório, e logo que venha a força e a plenitude do que é perfeito aquilo que foi treino deixa de ser necessário e termina.

Mas quando me lembrei deste trecho lindo de Paulo sobre ser menino e ser homem eu pensei que a gente precisa crescer como gente para fazer coisas grandes – ainda que se esteja tentando, procurando, pesquisando, treinando sempre, ainda assim, quando tivermos largado de ser ‘meninos’, poderemos fazer as coisas de gente grande.

Não há desprezo nenhum à meninice. Ser menino é viver parte na terra e parte no céu. É viver protegido e cuidado e é assim que deve ser. Mas enquanto é cuidado o menino observa e cresce até o tamanho da fôrma dos adultos que pode ver. Enrijece até a medida da rigidez que testemunhou entre os que pode observar. Torna-se amoroso, criativo, exigente, tanto quanto viu serem seus pais e avós, seus professores, vizinhos, enfim, quem ele possa ter visto enquanto crescia. E depois vão ainda além daqueles que imitaram. Novas gerações vão aprimorar nossas virtudes, e talvez também, e infelizmente, algo dos nossos vícios.

E é bem como Paulo fala – a consciência que cabe em um corpo de menino se pode atestar por aquilo que ele diz, como interpreta as coisas e como as reconstrói. Paulo põe a perfeição na altura da vida adulta – quem dera a gente, hein? Mas é assim, os meninos olham para cada um de nós como quem olha para a perfeição na terra: ‘quando eu crescer, eu quero ser como este sujeito!’

Mas se olhamos para nós mesmos reconhecemos que ainda mora algo de menino em nós. Queremos ter filhos, nos casar, trabalhar e ainda somos meninos. Quase sempre os filhos mais velhos tem uns ‘arranhões’ dessa nossa fase imatura. Estamos escolhendo pela primeira vez, as vezes vendo pela primeira vez. Depois de um tempo temos outras ninhadas de filhos e eles são naturalmente mais seguros, menos traumatizados.

Mas tem uma fase na vida que vamos querer fazer aquelas grandes instituições que salvarão o mundo e que talvez tenhamos sonhado enquanto éramos meninos. Mas não havia estofo em nós, então, não havia dureza suficiente. Há muita água e pouca rocha no menino. Há muita flexibilidade.

No entanto, em um certo momento estamos bem maduros. Aquilo que era sonho de criança ganha forma na terra e nasce no mundo. O interessante é que só conseguimos fundar e salvar das catástrofes quando formos ‘homens’, quando estivermos à altura. É preciso ter em si peso suficiente para ser âncora para o que vai nascer. Se considerarmos bem, uma grande obra dessas leva seu longo tempo de construção mais o tempo de maturação de cada um dos homens que a puseram no mundo.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.