Amor por Gente

3 abril 2014, Comentários 0

Tânia LealPoderíamos dar uma volta pela cidade e sentar num banco de praça. As pessoas passariam por nós e não saberíamos nada da vida delas. Normalmente as pessoas andam ciosas de suas coisas – caminham duras e apressadas sem nem olhar para o lado. Elas estão no meio de um caminho – estão indo ou voltando, sempre no meio da vida, no meio da própria história.

Lá entre os passantes você avista uma mulher. Não está assim tão perto que você consiga dizer sua idade. É magra, morena, tem o cabelo curto ou será que está preso em coque? Você não desconfia que a sacola que aquela mulher carrega traz mudas de couve para plantar no quintal dela. Traz um par de sapatos de homem que ela vai levar para o vizinho, traz uma bíblia, um lanche. A sacola da mulher leva uma história inteira cheia de possibilidades que são realidades para aquela mulher, mas que você desconhece.

E há o que ela veste, a cor da sua pele, como arranja os cabelos, sua idade, sua saúde. Há dentro dela algo que não conseguimos perceber de pronto que é seu caráter, suas virtudes – na verdade, com algum treino podemos adivinhar se é uma pessoa superficial ou profunda, se é leve ou pesada, se é responsável ou imprudente.

E há o modo com que se relaciona com o mundo: quais são seus princípios, quais são seus valores, o que ela carrega mais fundo em si.

Talvez a gente nunca consiga ouvir a voz dessa pessoa. Talvez ela seja muda, esteja rouca. Talvez tenha uma voz parecida com a voz de alguém que você conhece, com um sotaque revelador. Talvez tenha uma voz melodiosa. E mesmo que você tivesse a chance de ouvir a voz da pessoa que passa na rua, ainda assim você não conseguiria perceber sua dor nas costas, o calo no pé, a afta que a maltrata.

As pessoas são esféricas, são complicadas, são cheias de detalhes que a mente da gente não consegue cercar com pouco tempo de convívio. Que dirá numa passada pela calçada – misturada a montanhas de outras pessoas.

Curiosamente as pessoas levam suas vidas sabendo de todos os detalhes. Sabem das dívidas que têm, sabem das primeiras palavras apaixonadas que ouviu, sabem do que pensaram na hora em que sentiam a hóstia partindo na boca, exatamente.

As pessoas sabem das providências que devem tomar para e para quê e sabem de seus costumes mais reservados. Conhecem perfeitamente como gostam do café, como preferem dormir e a cor de seus olhos. As pessoas sabem de seus crimes diários e se castigam longamente e quietas.

Pense quanto tempo precisa uma pessoa para decorar as preferências que ela mesmo tem. A vida inteira? No entanto não estamos assim satisfeitos. Queremos saber mais. Queremos saber dos outros, saber se somos normais, se todo mundo tem sonhos desse jeito, se o dedinho minguinho de todo mundo tem a unha assim tão curta. Queremos saber do resto do universo, também, mas o mais urgente somos nós mesmos.

Queremos saber dos assuntos de que todos falam porque desejaríamos pertencer ao grupo das pessoas normais que passeiam pela rua pela frente dos bancos de praça. Desejamos ser normais para sermos bem quistos, para sermos amados.

No entanto o amor não tem nada a ver com ‘normalidade’. O amor não é para se dedicar a uma pessoa especial para toda a vida ‘até que a morte os separe’. Não. Amaremos muitos namorados ou namoradas e algumas pessoas com as quais não teremos quase nenhum contato vão nos conquistar o amor para a vida inteira. Amaremos nossos irmãos que nos maltratam diariamente com sua prepotência e sua rudeza. Amaremos nossos pais, poderosos, confusos, inexplicáveis.

Também deles não sabemos nada. Só sabemos de nós – e pouco! Teremos que ir aos adivinhos saber qual é o nosso futuro e para quê estamos na Terra. E olhe que somos nós a nos testemunhar a cada segundo. Mais um pouquinho de atenção nos faria perceber exatamente onde quem somos e o que devemos fazer.

Mas olhe quanta gente passa diante de nós! Se ficássemos por muito tempo no banco da praça ainda não veríamos demais, mas teríamos a chance de encurtar caminho e simplesmente amá-los todos, sem conhecê-los, mesmo – só pela sua humanidade.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.