Ambientes de memória

15 agosto 2013, Comentários 0

input_in_a_labyrinth_by_voitv-d39j51rGostaria de pensar sobre uma experiência pela qual todo mundo passa – a da memória. Pela memória estruturamos a nossa vida. Nos relacionamos com as experiências passadas de uma maneira que elas nos dão rumo em ocasiões posteriores. Somos levados a reconhecer pessoas ou eventos, locais e sensações e tudo o mais enfim que você mesmo, porque tem memória como eu, consegue relacionar com a memória.

Aqueles que reconhecem uma existência mais longa que a vida tem da memória uma impressão de limitação: estamos presos na vida e precisamos ultrapassar os limites de nascimento e morte para poder estender a memória para além desta vida e descobrir qual o sentido todo de nossas vidas, como se a cada nascimento estivéssemos acordando com a memória do ‘dia’ anterior, como ocorre todos os dias conosco. Ninguém tem que começar do zero todos os dias. Sabemos quem somos, com quem estamos casados, reconhecemos nossas casas, nossos filhos, parentes, trabalho, etc. Ninguém acorda de manhã todos os dias com a tarefa de realizar todas as coisas da vida de uma vez. Tal não seria se tivéssemos que tratar de tudo em apenas 24 horas – talvez as 12 em que estamos acordados! Impossível!

Pois esta é a proposta de quem pensa em uma única encarnação na terra. Que imagina que somos seres mais longamente viventes do que estes 70 anos que passamos na terra se preocupa em lembrar do que esteve fazendo até agora, para dar uma continuidade consciente e consistente ao mesmo trabalho, enfim.

Esta relação com a existência, com o passar dos anos, com a possibilidade de recuperar coisas passadas faz com que a gente relacione a memória ao tempo, unicamente. Mas houve uma experiência que me fez perceber que a memória cria espaços na nossa alma. Ambientes que a gente visita e que trazem para nós de novo as sensações e os pensamentos ligados à uma vivência.

Foi assim que lembrávamos de uma pessoa que morreu. Olhei para os olhos da minha interlocutora e ela estava chorando! Mas como? Passou-se tanto tempo desde o evento e ainda isto causava nela comoção como se ela estivesse no meio daquela vivência. Outras vezes lembramos disso e sempre ela caia no choro. Eu tentei consolá-la a princípio, depois lembrei-a do tempo que havia passado, mas ela voltou os olhos para mim dizendo em tom magoado que eu não podiria entender. Por que não? Eu tenho essencialmente o mesmo potencial que qualquer outro ser humano para todas as coisas. A que ela estaria se referindo?

Então eu percebi que ela se referia ao ambiente que ela visitava a cada lembrança. O ambiente da saudade, da dor, dos remorsos, das dúvidas, das palavras não ditas que ela criou dentro de si a partir da lembrança da pessoa que agora estava morta. Ela conlecionou expectativas, planos para o futuro e quando aconteceu a morte ela não conseguiu jogá-las fora! Quando a palavra evocava a lembrança daquela pessoa minha interlocutora era jogada dentro de uma sala de representações que a provocavam da mesma maneira – e que, no caso dela, resultavam nas mesmas emoções e pensamentos.

Bom, este assunto de ser vítima das mesmas emoções e pensamentos provocados pela memória já dava pano para outra postagem. Vamos deixar isto de lado e voltar ao caso dos ambientes.

Então era assim com ela, e eu comecei a me examinar também. A memória em mim também me retirava do espaço, além de me retirar do momento presente. Era como um transporte para uma sala onde se localizavam vários outros provocadores que se relacionavam com a memória detonadora. O curioso é que, se algo nos chama atenção no momento em que estamos com raiva ou chorando remexendo as lembranças do ‘quarto’ que criamos, somos retirados de lá de repente e tratamos das coisas que nos chamaram atenção. Podemos ter os olhos molhados, ainda o coração apertado, mas simplesmente saímos de lá e voltamos para o ambiente a nossa volta.

Talvez isto seja otimista. Há pessoas que frequentam estes ambientes. Talvez eles nos sirvam como referências – vou até lá e revejo assuntos relacionados, mas preciso lembrar de como entrei para poder pela minha própria vontade sair. Os ambientes criados pela memória podem estruturar corredores e labirintos e se eu descuidar, nunca mais retorno para o lugar onde estou, completo porque preenchido de relações potencialmente transformadoras. Os ambientes da memória só servem de referências.

Imagine agora que você entra em um quarto, e que no quarto tenha o de sempre: cama, guardarroupa, mesa de cabeceira. Você vai vendo aquilo, e abre uma gaveta, senta na cama e examina o que tem dentro: chaves, celular, óculos… Tudo te abre uma nova porta. Se você não tiver cuidado você nunca mais vai ser visto pelas pessoas a sua volta. E, o que é bem pior, nunca mais você vai voltar a vê-los.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.