Alfabetizar

7 fevereiro 2013, Comentários 1

Nossa sociedade tem uma urgência desvairada em alfabetizar as crianças. Os pais se vangloriam de seus filhos de 3 ou 4 anos saberem ler ou até escrever seus nomes. Há os que se vangloriam de seus filhos saberem já o alfabeto inteiro ou até ler, mesmo livrinhos e placas na rua.

menino e mãe

Eu penso seriamente sobre a  o grande ganho da alfabetização que é a gente entrar no mundo do pensamento dos outros. Eu devorei livros na minha vida como se seus autores estivessem presentes, sentados comigo me contando as histórias. Me sentia privilegiada pela presença de Machado de Assis com seu pessimismo e uma certa marotice, reverenciava Platão e com a leitura eu era carregada como se fosse um discípulo de quem quer que eu estivesse lendo. Ou ao contrário, me debatia negando aquilo que eu achava asneiras.

Isso até merece um parágrafo a parte: sempre que eu olhava estes senhores lendo jornais e meneando a cabeça positivamente ou franzindo o cenho em reprovação eu ria por dentro pensando como eram descontrolados: como podem ficar argumentando com uma pessoa que nem mesmo está lá? E no fim, eu mesma me peguei conversando com os autores!

Enfim, as bibliotecas, as banquinhas, as placas guardam um mundo de opiniões e estudos que valem muito conhecer. Com certeza não teremos tempo de ler tudo o que é necessário ler neste mundo de belo ou inteligente e que poderiam muito contribuir com a construção da nossa imagem do mundo.

E há, claro, a arte! Quem não se regozija de ser testemunha de um romance bem escrito ou vivenciar um poema que brinca com as formas e os sons mesmo antes de qualquer um reproduzir os sons nele sugeridos? E outros ainda que o silêncio valoriza, porque são construções visuais. É maravilhoso.

E escrever? Escrever engloba todo o universo de expressar beleza e ideias. Escrever pode mover montanhas, trazer pessoas para perto ou mandá-las para longe. Escrever supera o tempo – como ler também traz para mim gente que não está mais aqui. Eu projeto meus pensamentos para o futuro e permito que uma pessoa os conheça depois de minutos, dias ou anos! É extraordinária a escrita.

Por estas e por outras que estou no rol daqueles que acham importantíssimo alfabetizar as pessoas. Não podemos fechar para ninguém a possibilidade da viagem no tempo e no espaço. Do conhecimento solitário e acompanhado de gente de outras paragens. A ninguém deve ser tirada esta possibilidade. Ninguém.

Mas há sempre o outro lado da moeda: quem se lembra do mundo antes da sua própria alfabetização? O que era andar pelas ruas quando o mundo não se decodificava em símbolos de palavras mudas? Quando se entrava e saía das lojas e das mercearias, quando se usavam embalagens sem entender o que diziam? Quando a gente era ‘ignorante’ (como minha avó depreciativamente se classificava por não ter feito escola). Em que nos baseávamos para viver nesta época? Éramos cegos? Éramos infelizes? De jeito nenhum.

Nunca o mundo é mais rico do que na nossa infância. Nunca se aprende tanto – pergunte aos psicólogos. Nunca há tantas coisas fazendo tanto sentido como quando somos crianças e ignorantes do alfabeto. Nunca se compreende tanto das relações, dos limites sociais, das posturas interpessoais, dos códigos mudos da nossa sociedade. Toda a vida vai ter estas lições, mas nesta época bebemos o mundo às goladas porque todas as coisas significam demais: o nosso ritmo diário, o que nossas mães fazem desde a hora em que acordam até irmos dormir. Como falam, como se relacionam com os outros, como se relacionam com a natureza, a estética, a profissão. Com que postura se inclinam para as coisas, como agem moralmente, o que significa que elas estejam presentes. E também tudo isto e mais um pouco com os pais, os irmãos, avós, vizinhos.

E, talvez tão precioso quanto este conhecimento iletrado: temos um espaço aberto para a percepção de quem somos no mundo, do que nos fala nossa pele quando tocamos as coisas, do que nos falam nossas entranhas ao comer ou sentir fome. Do que nos fala nosso coração quando vemos algum sofrimento.

No momento em que alfabetizamos abrimos a porta para o passado e para outros lugares e tiramos as pessoas do momento presente. Isso é lindo e importante. Mas primeiro é preciso que se aprenda a se ouvir no presente. Se isto puder durar bastante, até que estejamos decodificando por nosso próprio interesse os códigos humanos, teremos colaborado para a ampla alfabetização para a vida.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Ana Maria Miranda

    O duro de aprender a ler e escrever é que teus olhos leem e enxergam tudo que está escrito sem seleção. Nunca mais a inocência do olhar.