A Felicidade e o Resto

26 fevereiro 2013, Comentários 1

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A Felicidade é uma meta. Todos querem ser felizes. E deste lado do planeta queremos ser felizes a moda ocidental: vou ao shopping e compro a felicidade – mais barata ou mais cara conforme o meu poder aquisitivo. Recentemente um refrigerante anunciava “abra a felicidade”. E é isso mesmo. Não se pode dizer que seja genial a criação do comercial. Genial é captar a essência da verdade que se tornou o padrão ocidental: a felicidade está fechada e alheia.

Em nosso íntimo acreditamos que a felicidade estará em alguma prateleira do supermercado em forma de comida, de diversão. Ansiamos por achar o produto que nos garanta a felicidade, porque no frigir dos ovos não nos sentimos felizes.

Como se pode ser feliz se o filho passa o dia lamentando a sorte na sua orelha, a esposa ou o marido se vê de visita antes se cair morto de cansado na cama, e isto após um dia esfalfante em um emprego obedecendo ordens que vão contra a sua própria vontade interior? Como é que se pode ser feliz postergando a vida inteira o dia em que se vai começar a fazer os exercícios e combater o sedentarismo, o dia em que se vai melhorar a dieta, o dia em que se vai comprar os tênis que protejam os pés na caminhada?

Não temos vontade de comer direito, nem de mexer o corpo nem de cuidar das nossas relações se não existe felicidade, mas ela não está no nosso companheiro ou companheira, não está nos nossos filhos nem no tênis ou no exercício.

Não existe felicidade em comer bem, ou comer muito, ou comer fora. Não existe felicidade no refrigerante nem nos tênis ou em roupas. Não existe felicidade pra comprar nem caro nem barato, porque a Felicidade não está fora da gente.

A Felicidade se relaciona com outros âmbitos da vida. É preciso inteireza para ter Felicidade, é preciso contentamento com a vida. Felicidade pode parecer estar no verde  gramado alheio, mas não está. Não se conquista a Felicidade dos outros. Ela é intransferível, também.

Depois de umas lambadas da vida que levei a pouco tempo, descobri que felicidade não tem nem mesmo a ver com alegria ou tristeza. O fato de sofrermos um golpe do destino, perdermos um ente querido, sermos traídos, o pneu furar na chuva à hora do maior trânsito, tudo isso não abala a Felicidade. A Felicidade é ampla, penetrante e serena. Ela não se abala com estes detalhes do cotidiano, com os cores diversas que aparecem na vida da gente.

Felicidade tem a ver com olhar as coisas sem pressa nem angústia: o trabalho acontece, as crianças crescem, as doenças são curadas, os anéis vão e os dedos ficam, como dizem os velhos, acidentes acontecem e viram história. Conforme a história vira crônica familiar, um ensinamento bonito, uma risada no final. Não é preciso trancar tudo, recomendar os filhos que não olhem para o lado, a gente pode gostar dos outros sempre.

Felicidade tem também a ver com acolhimento e não exigência, com equanimidade diante de todas as coisas, inclusive aquelas que surgem de detrás da cerca de repente e  derrubam a gente. Precisa levantar-se do susto, olhar o que é, abraçar a surpresa sem medo, sem raiva porque ela te muda o rumo, sem demandas de que ela vá trazer um benefício. Acolher é sem julgamento e sem crítica. Tem que se permitir não julgar.

Felicidade só é polida pelo colorido da vida. Chego a desconfiar que mesmo as pessoas que não se acreditam felizes, se começassem a polir a casca de depressões velhas e ansiedades se descobririam também felizes.

Tenho a impressão que Felicidade é inata e incurável, que é um dom e que todo mundo o tem.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Ana Maria Miranda

    A procura da Plenitude não está relacionada com alegria, saúde, família, emprego, dinheiro ou o que seja. Também não está no despojamento, na pobreza nem no sacrifício.Acho que Felicidade é o reconhecimento da Graça em nossa vida.