Acolher

11 fevereiro 2014, Comentários 0

Alfredo_Andersen Autorretrato 1926Hoje eu quero confiar plenamente. Saber que da boca de qualquer um sai a verdade perfeita, jamais desconfiar do contrário. Quero poder andar na rua agradecendo a brisa da noite e a companhia de todos os que estiverem fora de suas casas vagueando. Não quero nunca me condenar em casa ou prender minha filha por medo de sofrer uma violência. Quero que todo mundo desperte para a graça de ser humano e viver no mesmo planeta.

Mais de uma vez eu repeti que comemorava estar vivo enquanto certos amigos estavam também. Pense que oco seria não conhecer certas pessoas na sua vida. Mas no fim somos todos nós. Que privilégio poder encontrar desconhecidos com suas vidas ricas e para mim completamente misteriosas. Que lindo olhar as senhoras que varrem as calçadas e nunca saber que elas foram famosas cantoras, fortes militares, mães de 8 filhos, que elas frequentam praias de nudismo a vida toda, que elas viveram por 5 anos na Rússia, que elas são ex-presidiárias, que tiveram um chef de cozinha como marido, que inventaram a vacina para a AIDS.

Acho maravilhoso não conhecer a vida passada das pessoas, ou a futura! Você olha e só vê um guri descaço pulando o muro com os amigos. Quem serão estes meninos em 40 ou 80 anos? Não sei de nada e nem eles!

Não quero me afastar de ninguém porque são homens feios, velhos, porque fumam ou porque são de outro país. Não quero me afastar das pessoas porque parecem isto ou parecem aquilo – esta porque fuma, aquela porque bebe, a outra porque come com a mão. Não quero me afastar de ninguém porque descobri algo de ‘terrível’ na sua história ou porque ninguém que eu conheço tem amizade com ela.

Quero que as pessoas todas se sintam livres para falar com qualquer um, com os vagabundos da rua, com o caixa do banco, com a faxineira, com o presidente, com o presidiário, com a vendedora, com uma moça toda emperequetada no shopping, com um menino de bicicleta, como peão de obra que todo dia incomoda com um assobio. Quero que as pessoas todas percam a vontade de manter a distância e se interessem por se aproximar de todos que estão longe se protegendo.

E veja que cada um está diligentemente trabalhando sua vida. Cada um de nós, lançando ideias feito anzóis pelo mundo, recolhendo alguns que se lançou do passado. Cortando linhas, as vezes. Fazendo escolhas e cima de escolhas, remendando, refazendo. Acho que a gente está constantemente e ao mesmo tempo que escreve a grande história da nossa vida, reconstruindo trechos, reescrevendo capítulos. E deixamos histórias provisórias apoiarem o nosso percurso.

Tenho certeza que vou dar caminho original aos próximos anos da vida, como aliás, ninguém deixará de fazer. Afinal de contas o dia de amanhã é absolutamente sonhado. O futuro é simplesmente o que se quiser que ele seja. Quero inventar um meu e sorrir para as pessoas sem medo de contar as mil versões de mim mesma que eu teci durante a vida.

E quero poder conhecer muitas outras pessoas e compartilhar com elas também as histórias das suas vidas. Quero olhar para todas as pessoas com os olhos bem abertos e de frente. Quero poder estender minha mão com afeto e firmeza. Quero que confiem em mim sem medo ou desconfiança. Quero eu também, não ter medo de ninguém, de nenhuma história que me contem. Quero não temer nem o passado nem o futuro das pessoas. Quero ardentemente jamais ter que fazer força para perdoar qualquer coisa. Quero simples e naturalmente acolher tudo o que chegar aos meus ouvidos com alegria e absoluto contentamento.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.