Abra sua Vida

13 abril 2014, Comentários 0

fechaduraTem uma fase bem longa da vida em que a gente está simplesmente ouvindo e experimentando. A gente vai guardando um baú de perguntas, enchendo um quarto inteiro. Muitas destas perguntas a gente vai levar para depois da morte. Outras, porém, são respondidas no curso da vida.

Embora muitas perguntas sejam coincidentes para muitas pessoas, cada um se relaciona com a sua pergunta de uma maneira diferente. A expectativa da resposta existe sempre, mas quando a pergunta nos parece sagrada, quando é uma pergunta essencial, o coração de todas as perguntas que surgiram na vida, a gente não engole qualquer resposta, e guarda cuidadosamente a espera do momento da revelação.

As vezes a pergunta tortura a gente. Ela tem sua urgência de resposta, ou mais precisamente, uma urgência de contemplação. Ela precisa conversar com o mundo, sem ter a pretensão de deixar de ser pergunta. E assim como pergunta ela pode se fazer caminho para outras pessoas compararem suas perguntas, polirem suas perguntas para que fiquem mais agudas, mais precisas.

Na verdade as perguntas não têm respostas, elas tem capotes, cobertas, véus. Elas estão disfarçadas atrás de inúmeras possibilidades que não nos deixam ver com precisão seu formato preciso. E  por irmos a vida toda descobrindo a pergunta é que no final – as vezes da vida também, conseguimos perceber a resposta.

A pergunta se despe e se mostra em sua pureza e isto é que interpretamos como a resposta.

Veja, este é um trabalho de vida inteira, um trabalho que vai ficando mais claro com o tempo. Um certo momento no meio do caminho você se percebe com clareza sobre a sua pergunta. Você já tem clareza de que está por descobri-la completamente e reconheceu que existem muitas pessoas na mesma, talvez, descascando uma pergunta igual.

Neste momento você está descansado – não desistiu, não é isso. Mas surgiu já em você a clareza de que a pergunta é o caminho. Que não existem duas coisas: vida e pergunta. Que a pergunta é o corpo onde sua vida existe. Ela é o seu motivo, o título da sua ópera. Ela é o tema da sua biografia.

Agora é honroso compartilhar.

Eu não sei dizer a hora em que isto deve acontecer. Há gente que amadurece a pergunta mais rápido, há outros que vão levá-la muito adiante até se reconhecer nela. Mas examine o momento em que você está com a questão que é o motivo da sua vida. Quando isto for claro, permita que as outras pessoas que estão a sua volta te assistam. É preciso olhar a vida dos outros – a pergunta dos outros, para conhecer a própria vida.

E não há vergonha em estar no meio do caminho. O caminho é uma espiral de infinitas voltas. Na prática, está todo mundo no meio do caminho. Mas nós aproveitamos muitíssimo a experiência dos outros. Saber que alguém está calmo embora carregue uma pergunta tranquiliza e acorda na gente uma fé que se vai também chegar a esta calma, e que se vai também ter paciência para o momento do desvelamento da pergunta.

Como você vai mostrar? Eu não sei. Talvez seja no seu trabalho, na mudança do seu gesto, no modo de você respirar e reagir às coisas. Talvez precise de uma situação formal, precise de um CNPJ e uma placa com o anúncio. Talvez você precise subir em um banquinho no meio da rua mais movimentada da cidade e falar vem alto para todo mundo ouvir, e ver muitas pessoas desviando o caminho porque você está parecendo um louco.

O momento desta percepção não pode ficar escondido, porém. É um momento santo, é alçar mais um degrau na interminável escadaria. E neste momento você pode estender a mão e apontar ainda que seja para pouco mais de meia dúzia de pessoas que é assim mesmo que funciona.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.