A Volta para Casa

19 fevereiro 2013, Comentários 0

corrida

Li agora há pouco um texto falando sobre a questão da fé em Deus. E eu tenho que concordar. Não foram apresentadas provas científicas da existência de Deus que justificassem essa quantidade de gente se movendo em torno desse assunto.

Penso que a existência de Deus é uma certeza muito anterior aos critérios cientificos e a nossa capacidade de discernir baseando-nos em nossas percepções, como requer a ciência. Esta certeza não está sozinha, claro, mas é uma certeza importante, porque, como dizia o artigo que li, há uma soma cada vez maior – e mais rentosa, como fazia questão de salientar, de igrejas que se baseiam na existência de Deus para existir.

Gosto de imaginar como funciona este ciclo longo da nossa humanidade. De um confortável sono infantil onde não nos preocupava nada, mas em que simplesmente existíamos na graça, passando depois por momentos em que a consciência só permitia a adoração e a gratidão pelo cuidado, e pouco a pouco adolescendo para se revoltar contra a dependência e finalmente sairmos de casa e negarmos a existência dos nossos pais.

Pois é, não somos adultos ainda. Já era de se esperar, mas não somos. Estamos ainda maravilhados com nossa capacidade inata de gerar conhecimento e ciência a partir do nada. Não fosse nossa pressa em desancar o Criador, nossa necessidade de nos afirmarmos auto-suficientes, nós adoraríamos o Nada, porque contamos que o Nada é que gerou tudo isso. E no fim teríamos igrejas  em gerando o mesmo dinheiro aos pés deste deus.

E no fim, acho que temos mesmo. Acho que milhões rolam por trás da grande adoração da espontaneidade da criação. Não dá para usar estas palavras assim: espontaneidade e criação. O que seria melhor? Geração espontânea? Nada fica bom, mas veja se me entende.

Selamos nosso acesso a qualquer ligação que não seja absolutamente material. Todas as relações devem ocorrer na matéria, não importa o que se testemunha todos os dias o contrário nas nossas próprias vidas. Se fosse assim, por que voltamos para casa? Por que o mesmo marido, o mesmo filho todos os dias as mesmas coisas? Se a questão é material somente não precisaríamos ser assim tão criteriosos. Nosso DNA não é praticamente o mesmo? Que diferença faz o nome do sujeito ou o endereço da casa?

Me pergunto se ninguém desconfia que a gente nasce exatamente no lugar em que precisa nascer. Sim, com a mãe metódica que fica cobrando que se sente de um certo jeito, que se organize a louça de tal outro modo ao lavá-la. Me pergunto a quê as pessoas atribuem viver longos anos sofrendo em um casamento difícil com uma pessoa complicada. Pula fora! Mas a gente persevera naquela relação, faz um tratamento psicológico que dura o tempo do casamento porque pensa que se está ficando louco.

Será que está na matéria a razão de a gente fazer estas escolhas assim complicadas? Será que ninguém poderia com praticidade escolher em um banco uma pessoa ideal que trouxesse 100% de alegria?

Eu quero acreditar que quando estávamos no poleiro das almas – assim nomeou João Ubaldo Ribeiro – bem, lá a gente já tinha se organizado para nossos encontros por estas bandas. E o Poleiro das Almas não tem nada mesmo de material, lamento dizer, nem é em um tempo muito bem determinado. É o tempo de antes de a gente estar aqui se debicando por nosso planeta, e discutindo a certeza da existência de Deus.

Hoje estamos de costas para isto, impedidos de olhar para trás porque atrás de nós há uma cortina fechada. Não a abrimos porque nos esquecemos dela e há tantas coisas que nos chamam a atenção neste ponto da nossa existência!

Enquanto isso os nossos pais nos assistem de longe orgulhosos das nossas façanhas e ansiosos pelo dia em que sosseguemos um pouco e voltemos para casa.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.