A Verdade e a Preguiça

30 julho 2013, Comentários 0

ponto de vista (2)Não conheço ninguém que não tenha uma opinião a respeito de qualquer assunto que apareça. E as bases da opinião sempre recaem no “gosto/não gosto”, “é bom/não é bom”, no que me é fácil de abraçar e naquilo que não consigo admitir de jeito nenhum. De um certo ponto de vista esta é uma maneira de a gente se defender do mundo. Uma vez que a gente receba uma impressão de algum fenômeno, a gente trata logo de encaixotá-la, isto bem rapidamente. Há pessoas pacientes – não muitas – que reviram as caixas e vão de novo enfrentar o que veio de fora. Outros esquecem-nas empoeiradas e uma vez que seja mexido no assunto de novo, elas levantam das caixas guardadas aquela opinião precipitada da primeira defesa e apresentam-no como se fosse algo bem ponderado e justo.

Em tudo o que fazemos partimos destas opiniões que não passam de reações emocionais de defesa e proteção. Tudo bem, eu compreendo perfeitamente que não poderíamos estar por aí em carne viva, expondo-nos à dor do medo ou às coceiras das dúvidas a cada vez. Afinal é preciso admitir que o mundo é cheio de novidades e a cada pouco nos deparamos com assuntos diferentes e agressivos. Eu admito que se justifica muito bem apresentarmos o que se nos aparece primeiro, mas somente se estivermos dispostos a revê-lo depois.

Somos capazes de falar sobre assuntos espinhosos e controvertidos e dizer pomposamente e sem titubear: ‘gays são doentes’, ‘deficientes são incapazes’, ‘mentir é um mal necessário’. Damos estes vereditos e nunca mais olhamos para trás, para ver como de fato se aplicam à realidade estas afirmações.

O que será que nos faz sustentar por tanto tempo tais afirmações dentro de nós e esquecermos que existem pessoas muito diferentes espalhadas pelo mundo? Por que será que não olhamos mais para fora depois que dizemos internamente: ‘gays são doentes’. Não somos capazes de admitir que as pessoas são muito mais complexas, que talvez estejamos todos em alguma medida doentes em algum âmbito da nossa vida e que talvez isso não seja determinantemente uma questão sexual.

Depois de afirmar que ‘deficientes são incapazes’ não podemos lidar com a realidade de um Jacques Lusseyran ou com a história de Hellen Keller. É como se disséssemos que tais pessoas não existissem, ou não fossem pessoas, ou não tivessem nenhuma questão física. Se não for assim nossa afirmação desaba. O extraordinário da vida destas pessoas e o fato de elas romperem com os limites do que dissemos a respeito delas é o que nos aperta contra parede. Um deficientes pode menos porque tem menos ferramentas que os outros? Não se julga a individualidade, não se julga nada além do corpo e se quer afirmar que aquilo que se pensa é a verdade!

Mas ‘mentir é um mal necessário’ precisa ser admitido como verdade! Ora, mentir traz consequências como traz consequências dizer a verdade. Como se diz, onde se diz e para quem. Com que intenção, e, que momento etc, tudo isso traz consequências apenas. Agora se não somos capazes de lidar com as consequências é que estamos implicando que é necessário mentir – ainda que sejamos capazes de dizer que é um mal. A questão vai demandar mais alguns momentos da nossa instável atenção, do nosso indisciplinado pensar.

Precisamos admitir que o que nos leva a apresentar um veredito a respeito de um assunto é uma preguiça de olhar para o mundo de novo. Isto significaria descascar-se um pouco das capas protetoras que nós construímos quando primeiro nos deparamos com o fenômeno. Os incômodos de não conseguir deixar nada sossegado e definitivo internamente é que nos faz empilhar afirmações e jamais olhá-las de novo, jamais confrontá-las com a realidade.

Proponho o exercício da abertura de uma caixa apenas, uma caixa a sua escolha, e que você passe uma semana confrontando-a com a realidade de uma maneira científica. Poucas afirmações resistem a estes confrontos. E a minha impressão é que isto é bom. Tenho a impressão que é nossa preguiça em rever as coisas que nos engessa e nos impede de enxergar mais longe.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.