A Providência

25 fevereiro 2013, Comentários 1

DSCN1360Pare um pouco e olhe. Olhe para suas unhas, sua transparência e seus limites. Olhe para a habilidade dos seus dedos enquanto digita no computador. Olhe como você se senta e como consegue reconhecer tracinhos nos textos, as letras. Imagine o serviço que prestam os seus olhos, como é que eles apalpam as imagens e as desconstroem para que você consiga interpretá-las. É fantástico!

Admire-se da geração dos bebês, da organização celular, de nascer cabelos na cabeça, de miraculosamente podermos ficar em pé. Isto sem falar de todas as outras maravilhas pelas quais estamos cercados sem quase nos apercebermos. Nossos encontros nas esquinas, reencontros, casamentos, famílias? E que chova e que a Terra gire? Que nasçam as penas nos passarinhos – e da cor certa e no lugar certo. Nossa mente seria capaz de atravessar a Terra em suas camadas minerais e encontrar os filões de metais jazendo entre mantas rochosas das mais diversas composições. Poderíamos pensar na textura e temperatura das camadas amolecendo ao aquecer cada vez mais para o centro do planeta.

Não podemos ficar impassíveis diante do vento, do ar que respiramos e de nossa capacidade de respirar, mesma. De que a cada pouco nos abrimos para que o ar entre em nosso corpo na confiança de que lá dentro vai haver magicamente uma absorção do que é necessário para nossa vida. Do ar para o sangue, do sangue para cada ínfima e remota parte do corpo, e de volta com o que deve retornar ao ar. O mesmo ar que vai passear pelas plantas, pela água, pelos animais.

É de se admirar de tudo, até da tela do seu computador, nada natural, mas que precisou ser extraída da terra e trabalhada pela inteligência humana e se erige diante de você. A inteligência humana, a capacidade humana de aproveitar o que há na natureza, de seus segredos de ligar-se e desligar-se, de transparências, de condutividades. Não existe nada para que possamos virar as costas. É tudo maravilhoso.

Sim, há os desencontros, os acidentes, as perdas, a morte, mas quem providencia todos estes eventos nas nossas vidas? E o que eles nos trazem? Ninguém sai menor de nenhuma experiência. Sempre estamos crescendo e aprendendo. E há aquilo de que nos envergonhamos. Há os erros. Mas só os consideramos erros porque sabemos que podemos mais, que precisamos nos empenhar e conseguir mais. E hoje podemos mais que ontem. Amanhã, poderemos ainda mais, certamente.

Quem é que administra toda esta pluralidade de fenômenos tão perfeitamente organizados? O acaso? Será que o seu fígado trabalha neste grau de perfeição por acaso? Você sabe a quem o fígado obedece? Quem é o produtor que prepara o seu corpo tão prontamente para receber o vinho, o macarrão, o abraço, a roupa no jantar em que você vai pedir a mão da sua namorada em casamento? Com quem você contou para encontrá-la? Quem garante que ela vá mesmo ter ouvidos que te ouçam e saiba decodificar os ruídos da língua que você fala, e que o sentimento dela esteja em harmonia com o seu para que ela te responda?

Pisamos em um chão firme que nos sustenta, apoiados em fantásticas alavancas a cujos movimentos não damos nenhuma importância, mas que vão permitir que você se incline para ela, segure sua mão, ofereça um beijo, um anel, ou dançar com ela. Vestindo roupas lindas, que adornam e agasalham, em um ambiente acolhedor, com música perfeita tocada pelas mãos de homens e mulheres que possuem biografias pessoais originais e inéditas, cujos músculos obedecem a um ritmo imaginado, vivido que permite a você receber uma resposta.

Nós estamos quase dormindo para tudo isso, mas precisamos acreditar que vivemos na Providência, que vivemos da Graça. Nenhum de nós conseguiria pensar em tudo isso. No entanto a vida se apresenta assim para você.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Ana Maria

    A vida é uma coisa tão banal, que nem prestamos atenção nos milagres constantes, seguidos, de cada segundo vivido pela Graça.