A morte e o telefone

10 março 2013, Comentários 0

Celular-perdidoConsiderem que nós precisamos usar nossos sentidos para nos comunicar: olhamo-nos e nossos olhos nos revelam as aparências visuais. Podemos muitas vezes definir feminilidade e masculinidade na pessoa a partir de um olhar que alcança dezenas de metros. Percebemos a etnia, a altura, a idade. Podemos ser capazes de determinar o grupo econômico a que a pessoa pertença. Talvez consigamos determinar também o grupo social – se se trata de um hippie, se é um executivo, se é um punk, uma perua, um conservador. O olhar nos revela muito mesmo de longe.

Ainda de externo os olhos podem nos revelar as relações estéticas da pessoa em relação às roupas e se prestarmos atenção ao meio onde uma pessoa se encontra avançamos ainda mais nesta percepção. Se chegarmos mais perto pode nos revelar ainda mais. Chegamos a perceber as emoções e a atitude das pessoas em relação às coisas. Podemos perceber nos olhares e nas pequenas contrações do rosto as reações que a pessoa tem ao mundo que a rodeia. Podemos perceber tais coisas também sobre o modo com que a pessoa se relaciona com os outros. Isto tudo e talvez muito mais nos revela os olhos.

Temos outros sentidos. O da audição que nos traz revelações externas – um caminhar pesado, um bater de porta, a suavidade dos gestos. Mas traz também a fala que desnuda completamente as pessoas para nós. A fala carrega toda a capacidade emocional e a presença das virtudes espirituais. Tanto a escolha do vocabulário quanto a cortesia estão dentro da percepção de uma palavra somente que se ouça. A arrogância e a humildade, a ironia e a gentileza, tudo nos revela a fala.

Além disso a voz pode ser limpa e harmônica ou rasqueante e cansada, ou rude. E há o canto e a harmonização da voz com as outras vozes. Tanto pode ser percebido com a audição e tão sutil é esta percepção!

E temos outros sentidos: o tato, o que nos diz o tato! Da pele, da fortaleza, da rigidez, da maciez, da gordura, da umidade, da secura, da dureza. Também do cuidado ou maltrato do tempo sobre a pessoa. Da sorte na vida – da proteção ou da solidão. O tato nos revela amizade e abertura ou rechaçamento. Revela fragilidade, também. Ao lado dele o sentido da temperatura combinado nos traz um conteúdo maior e mais complexo ainda.

E temos outros sentidos: do paladar e do olfato que nos revelam abertura para o amor, saúde e doença, cansaço, trabalho pesado.

Além destes há sentidos mais complexos que se apoiam nesses e são sentidos de percepção através do abraço, da proximidade, do pensamento. Como os que usamos sobre o da audição e da visão quando falamos com alguém por computador: estão lá imagem e som, não limpos, mas filtrados, mas eles nos trazem a sensação de que há alguém falando comigo, e que não se trata de uma secretária eletrônica ou algo semelhante.

Os sentidos físicos nos revelam muito a respeito do físico das outras pessoas e do mundo. Sempre nos consterna ver uma pessoa a quem falte uma destas ferramentas. Nos apoiamos tão confiantes nos nossos sentidos para perscrutar o mundo que nos parece a coisa mais difícil abdicar de qualquer deles.

Os sentidos são capacidades do corpo. Oferecemos os nossos corpos e quem somos para que os outros nos percebam, também. É como um telefone que comunica aos outros todas as mensagens que podemos imaginar e, quanto mais sutil e treinado o ‘sensor’ das pessoas, melhor é aproveitado o instrumento de comunicação.

E aí existe a perda do telefone. Tanto você pode imaginar-se perdendo o aparelho quanto perdendo o chip ou ainda deixando o aparelho sem bateria. Daí você o perde, não dá para ligar para ele e acabou-se. As pessoas que tinham o seu contato por ele não podem mais acessar você. Você não pode mais acessar as pessoas da sua agenda. Encerrou-se.

E há que se conformar com isso. Talvez em vinte anos, pegando um ônibus em outra cidade você acabe por dar de cara com uma pessoa querida cujo número você perdeu, ou que conseguia falar com você só pelo número do seu aparelho. Isto é raro, porém.

Morrer, para mim, é a mesma coisa. É perder o acesso às outras pessoas. Ninguém mais consegue falar com o morto. Você pode achar um aparelho telefônico sem chip na rua, mas nunca vai conseguir achar o dono. É o corpo físico abandonado, desligado do conjunto. É inútil para se conversar com o dono original do corpo.

Tanto nós podemos ser os donos do corpo quanto outra pessoa. Hoje só conseguimos testemunhar a morte alheia, jamais a nossa. Um dia morreremos. Isto não quer dizer que as pessoas desapareçam ou deixem de existir. Ninguém acredita que depois de perder um número telefônico a dona do número desapareceu.

Assim para mim é a desencarnação. Perdeu-se o meio de comunicação. Ficamos tristes e frustrados. Ainda precisava de um abraço. Ainda era preciso dizer o quanto se ama aquela pessoa. Mas não temos seu telefone!

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.