A Morte do Príncipe

7 agosto 2013, Comentários 0

leão IshtarTenho absoluta certeza de que todas as coisas que acontecem em toda a parte desde os mais remotos tempos da humanidade me afetam, e que qualquer coisa que eu faça na minha vida também vai afetar tudo e todo mundo através dos tempos.

Em momentos em que eu tenho os olhos baços porque estou distraída eu me apavoro com notícias da televisão e a simples cogitação de maltrato de bicho ou ser humano, me arrasa. Carrego culpa, carrego o peso de tudo, me escondo em mim mesma e fico de olhos fechados cultivando a dor de ter feito o que não queria – porque não cheguei a tempo, porque não preveni, porque não eduquei, porque não afastei.

A capacidade que a gente tem de se por de castigo é tão grande que passo horas e já passei dias carregando a cruz da ação dos outros. Não que eu ache que de fato não tenho relação com elas, mas creio piamente que existe um outro viés para o sucesso dos acontecimentos e que se eu previnisse que algo viesse a cabo provavelmente inúmeras experiências necessárias deixariam de existir.

Neste momento eu sou como aquele rei que perdeu o filho. Conhecem o conto? Pois é assim que um rei esperava ansiosamente pelo nascimento de seu filho. Seria o primeiro príncipe e ele queria – como todos queremos – que a vida deste seu filho fosse maravilhosa. Queria estar preparado para tudo e então fez virem ao palácio todos os videntes, os sacerdotes, as feiticeiras, enfim, todos os que diziam poder prever o futuro do menino.

Lá pelas tantas de ouvir somente coisas boas de seu filho: que ele seria muito lindo, muito inteligente, que todos admirariam a sua coragem, que seria um exímio caçador, que tocaria vários instrumentos com maestria, que declamaria com tanto sentimento que seria capaz de comover o país inteiro, que seria bom dançarino, que seria excelente lutador, que conheceria todas as ciências e seria um filósofo e um poeta, etc. Bem, depois de saber destas maravilhosas virtudes do príncipe, chegou ao palácio um astrólogo árabe. Bom, os astrólogos árabes eram praticamente cientistas da vidência e o rei entusiasmou-se por confirmar tudo de magnífico que havia ouvido sobre o filho.

E o astrólogo não o decepcionou. Repetiu para o rei cada palavra que todos os outros tinham dito e acrescentou apenas um detalhe: ‘o príncipe há de morrer cedo’. O rei apavorou-se com aquela noticia. Como assim? ‘Tantos dotes e ele vai morrer cedo? Levará meu coração se isto acontecer.’ Dizia o rei.

O astrólogo foi recolhendo suas coisas de cima da mesa: compasso, esquadro, a carta que tinha desenhado do príncipe, quando o rei voltou-se para ele e perguntou-lhe se ele sabia do que morreria o príncipe. O astrólogo, sem titubear lhe disse: ‘um leão vai ser a causa de sua morte.’ E foi embora.

O rei sentou-se triste. Ia nascer-lhe um menino e o destino lhe tiraria a oportunidade de viver longamente! Ele não podia permitir. Antes mesmo do menino nascer cercou o palácio de um alto muro, mas bem longe, de forma que dentro do palácio ficaram lindos bosques, fontes e colinas de onde se podia divisar mesmo o horizonte.

O príncipe então nasceu e foi como todos haviam previsto: não havia nada em que ele se metesse que não mostrasse sua genialidade. Ele estudava muito e se exercitava nadando nos belos lagos que rodeavam o imenso jardim do castelo. Entravam ali somente pessoas escolhidas e, principalmente, nenhum leão podia viver sequer perto dos muros do castelo.

Com certa idade pediu ao pai para sair de lá em uma jornada. O pai lhe negou dizendo que se saísse morreria por conta de um leão. Ele saiu revoltado a andar por dentro do jardim. Passou a odiar o lugar onde nascera e a condenação que sofria. Chegou ao pé do muro. Todo ele era coberto de paisagens e nelas havia sempre animais que já conhecia de cór. Dirigiu-se à figura do leão e desnorteado pela raiva que sentia atirou-se contra a figura no muro, bateu a cabeça e de fato, morreu.

Eu me coloco na posição deste rei. Eu me sinto como ele: protejo meu filho de tal modo que aquilo que o protege termina sendo a causa da sua desgraça!

Mas há momentos em que percebo que somos instrumentos da grande orquestra humana, que faltando a nossa colaboração não existe a música como existe com ela. Podemos e devemos agir, mas precisamos nos conter para permitir que tudo aconteça de modo que as pessoas possam viver aquilo que precisam para completarem aquilo que lhes falta na vida.

E tenho a impressão que mesmo que fizéssemos força contra isto, estaríamos apresentando o muro no qual as pessoas encontram tudo de qualquer maneira. A gente precisa estar contente com todas as coisas, acolher com tranquilidade, com equanimidade. Tudo.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.