A Indisfarçável Liberdade

Categoria Educação
7 novembro 2013, Comentários 0

Icarus MatisseTenho frequentado os lugares em que todos nós trabalhamos, onde moramos e onde nos divertimos. Vi escolas, empresas, reuniões de família ou de amigos e em toda a parte percebi uma presença teimosa e indisfarçável, a presença da Liberdade.

O que se diz de a nossa cultura nos amarrar, dos nossos hábitos e dos nossos genes, sim, tudo isso poderia nos ajudar a disfarçar, mas estamos inexoravelmente fadados à Liberdade. Não dá para fugir dela. Em um dado momento se está no mundo. Nu. Sozinho. Tudo depende da sua próxima decisão e nada pode te tirar a absoluta certeza de que não há nada que te prenda a absolutamente nada. Você é livre.

No entanto, e curiosamente, passamos nossa vida inteira atrás da Liberdade. Nós somos adolescentes crônicos brigando com nossos pais para que eles não perturbem cobrando os horários e as tarefas. Bom, agora é oficial: eles não te cobram mais – pode ficar na cama até a hora que quiser e não precisa tomar banho. Não tem limite. Pode esperar criar bicho, não existe quem te cobre mais nada. Não, nem o seu chefe – vamos por as cartas na mesa: chefes não são autoridades sobre ninguém. É assim como se diz: o chefe pode ser um líder, mas não manda nada.

De que você tem medo? De perder o emprego, de perder os amigos, de sua família lhe virar as costas? Você quer ir para o Céu, viver o Nirvana, você quer ser salvo? Pois é, tudo isto que te prende é você, em última análise, quem estabeleceu no exercício da sua Liberdade. É você mesmo, nu e sozinho diante de tudo.

Porque você não escolheu uma modalidade religiosa mais confortável? Já no Renascimento bastava escolher. Era possível, sendo cristão, receber a salvação de presente, por meio das ações ou pelo exercício da fé, por exemplo. Você não é cristão? Ora, aí o leque se amplia muito: pode-se escolher religiões que pregam toda a sorte de diversidade para o pós-mortem. Mas não, você vai continuar preso nesta religião que você escolheu, que te colocou de castigo atrás de uma coleção de ‘deves’ e ‘não-deves’.

E tudo isso é você quem escolhe na sua liberdade.

Ah, você acha que não pode fazer as coisas porque então vai ferir alguém, ou vai ser preso ou excluído? Ainda assim, é você, livremente, quem escolhe tudo. Não existe limite fora de você, e talvez você ache isto lamentável, talvez você ache a Liberdade que você tem limitadora.

É, porque a gente tem que admitir: assumir que se é livre faz com que você assuma também toda a responsabilidade sobre as suas escolhas. Tudo, sim, é você mesmo que escolheu: a sua profissão óbvia, as companhias de que você não gosta, o congestionamento. Você é quem escolhe estar fora do peso, sentir asia e ter reumatismo.

Não te contaram já que a mudança de hábitos podia mudar tudo? Que se você alterasse sua dieta a dor desaparecia? Mas você ainda está dizendo que “sofre do coração porque é de família.”

Está bem. Dá para se enganar por mais um tempo, mas espero que você não fique disfarçando a vida toda. Como você deve ter percebido, cada decisão mínima que seja traz consequências. Você lida com sementes: plantou, breve vêm os brotinhos. A vida se torna um corolário de colheitas. Não se engane pela quantidade, elas são fruto da sua intransferível liberdade, da sua preciosa, da sua cara liberdade.

Tome as rédeas e experimente. Você pode até desfazer laços. Perdoar dívidas. Ir embora. Você pode ser exatamente quem quer ser. Não se demore.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.