A História de Todos Nós

8 fevereiro 2013, Comentários 0

A História de Todos Nós

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Todo mundo já teve a experiência de ir para a escola. Muitas escolas em diferentes lugares. Conhecemos nossas escolas, as dos nossos amigos e talvez dos nossos filhos mais tarde, se os tivermos. Há certas épocas da vida em que adoramos ir para a escola. Vários momentos diferentes e também por diferentes razões: gostamos de ver nossos colegas no início da escola. Nos encantamos com o ambiente que não é mais o da nossa casa, onde não estão nossos pais e irmãos (no meu tempo era raro quem não tivesse irmão), e gostamos mesmo de conhecer o conteúdo que nossos professores trazem para a sala de aula.

Talvez também a gente tenha gostado de ir para a escola mais tarde, na adolescência, e daí por outros motivos. Também todos nós odiamos a escola em algum momento da nossa vida. Sempre por um motivo como amigos ou – muito frequentemente – frustração por não dar conta de um conteúdo.

Eu não me lembro de ninguém que diga ter gostado ou desgostado da escola por si mesma. Sempre são as pessoas o centro da escola. E se eu repeti muitas vezes que achava que a escola é inútil, eu preciso me desculpar. Não é inútil. Uma parte enorme da minha formação aconteceu dentro das paredes da escola, com meus colegas e meus professores. É isso o que acontece com a maioria de nós: somos mandados para a escola no início da nossa vida e entramos na sopa. Estamos imersos na escola experimentando a humanidade – a nossa própria humanidade e a de quem nos fizer companhia.

Minhas grandes questões morais, meus intensos amores, minhas vergonhas imperdoáveis, com tudo eu lido desde a escola. Dentro da escola. Não sei como vocês lidam com estas coisas, mas eu fico em silêncio. Na escola eu imaginava que só eu vivia estas vilezas – eu e o Pessoa, agora eu sei!* Como é difícil ser a mais repreensível das criaturas. Na minha visão pessoal, se os outros erravam era por ignorância, por medo, enfim, qualquer coisa justificável, mas eu não podia errar nunca.

Mais tarde me tornei professora e atuei como regente em uma escola waldorf. Foi uma cura! E sabe como? Diariamente se contam histórias aos nossos alunos. Primeiro são contos rítmicos, depois contos de fadas – grandes ilustrações da biografia humana. Mais tarde contam-se fábulas e em contraste histórias de santos – tudo aquilo que a alma humana pode experimentar. Depois histórias do Velho Testamento, amplas histórias sobre as batalhas com a autoridade, (foi aí que eu comecei a tratar com a contação) e daí vem as fantásticas histórias da mitologia nórdica – coragem, medo e decisão são protagonistas. Não tem experiência melhor do que vivenciar os grandes combates destas histórias!

E então a História humana vivida na Terra entra em cena: desde as mitologias registradas nos antigos livros religiosos – os Upanishads, o Mahabharata e em sequência os registros das civilizações antigas – as egípcias, Homero, as romanas, medievais e assim se modernizando e abrindo espaço para temas dessas épocas da humanidade.

A partir daí vão-se inserindo histórias dos povos até que se introduzam biografias de personagens individuais na história. É como se contássemos para as crianças histórias gerais e chegássemos a histórias específicas. Mas as biografias tratam das mesmas dificuldades, das mesmas perdas e conquistas que um ser humano pode ter ou conseguir.

O que é interessante em tudo isso é que o professor que conta a história também recebe em contrapartida o exemplo terapêutico de se ouvir uma história. É como se a compaixão desfizesse os nossos problemas. Conto uma história da vida de um homem, do Mandela, da Zilda Arns, por exemplo, ou do Thomas Jefferson e, contando, eu visto aquele drama. Eu sofro e me regozijo com a vivência da biografia de um outro ser humano e o abraço com profundo interesse e desejo de sanar suas dores e relevar suas vitórias. E assim eu sano as minhas dores. Curo-me eu, o contador, que vive o meio de uma biografia – a minha – e que ofereço a história como alimento para a alma dos alunos.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.