A Escolha da Escola

9 fevereiro 2013, Comentários 0

ir pra escola

Estive pensando sobre o propósito da escola. Nós, ocidentais, que temos um computador diante de nós – uma massa mínima da humanidade, estejamos conscientes disso! nós não cogitamos a vida de nossos filhos sem a escola. Também muitos dos nossos contemporâneos que não tem computador, mas tem televisão em casa consideram a escola desta maneira – indispensável. Muitos, que não tem nem computador nem TV em casa são arrebanhados em escolas nas quais a escolha não fica em parâmetros de tipo: quero uma proposta Piaget, uma proposta tecnicista? No caso destes a questão é: ter uma escola que alfabetize de alguma maneira ou não a ter escola de jeito nenhum.

Mas nós não consideramos a escola uma preocupação pessoal. Temos outras preocupações, outras profissões. Então não há na escola uma coordenadora pedagógica responsável por pensar a escola? Não são os professores obedientes a isso? À proposta pedagógica geral, à escola que se escolheu – e ela é confiável, claro, porque você sabe que ela é antiga, ou tradicional, aprova muitos no vestibular, tem notas altas no ENEM, seleciona uma classe de pessoas que você respeita ou foi a escola de pessoas admiráveis.

Mas o que tem por trás da tal proposta e quanto disso realmente nos exime de participar das escolhas de direcionamento dentro da escola? O que norteia a proposta da escola? E que impacto tem o que a escola propõe na formação do meu filho?

Na cidade onde eu moro existe uma cultura bastante pesada em torno da escola. Somos conservadores, de modo geral. Desconfiados. Somos prósperos por um lado e achamos que, de maneira geral, se não somos perfeitos, pelo menos temos a estabilidade de estar na frente em diversos aspectos, então é mais seguro não mudar nada. Fiquemos assim. Deste modo a escolha das escolas é uma escolha pela repetição: o que deu certo até agora é o que vai ser bom para o meu filho. Não pensamos muito se isto é o que vai fazer bem. Não discutimos muito o que já está estabelecido.

Fato é que a nossa sociedade é uma sociedade classista, racista, competitiva, consumista, antiecológica, hipócrita diante da preservação do meio ambiente. Conservadorismo numa sociedade assim parece brincadeira, mas esta é a opção para a maioria das famílias. Infelizmente isto não acontece somente nesta cidade onde eu moro. Uma imensa quantidade de pessoas se agarra ao conforto que sua geração conquistou levando seus filhos a escolas repetidoras. Escolas conservadoras que vão garantir que estes meninos e meninas de hoje passem no vestibular para engenharia, medicina ou direito, casem com uma pessoa de uma família confiável, adquiram – ou conservem – propriedades, façam algum dinheiro nesta vida e mantenham a ordem levando seus filhos às mesmas escolas e assim por diante.

Bom, os vestibulares agora vão dar espaço aos historicamente destituídos, temos que resgatar nossas injustiças crônicas, abrir espaço no sistema para todos. Isto acabará por diluir o status do ensino superior – que aliás, já não está mais na mesma altura de há alguns anos. Pode ser que muitos decidam não empreender esta jornada. Vão trabalhar em coisas que valham o esforço, que cortem caminho, que façam fortuna, que deem satisfação, sei lá. Mas fazer o mesmo caminho pode ser que não seja a escolha.

No entanto isto somente vai abrir portas para pessoas que já viveram anos em escolas que estimularam a competitividade, o consumismo, a satisfação pessoal sobre a satisfação coletiva. E isto pode ser tanto no lado de quem está por cima como quem esteja sofrendo por não ser o melhor. Continuaremos no ritmo do ‘cada um por si’. Continuamos virando as costas para a humanidade e para o planeta, porque no fim das contas estamos preocupados com que nossos filhos tenham dinheiro e status. E o filho dos outros, se conseguiu um lugar na mesma escola talvez seja visto como um concorrente, e se não conseguiu, já foi eliminado da classe de quem vai se dar bem nesta vida.

Assim tem sido até hoje. Eu não sou pessimista, porém. Confio que estamos fadados a melhorar sempre. Talvez pela nossa própria decisão, em liberdade, talvez por uma crise social que empurre à mudança, e daí será por medo.

Minha proposta é que rompamos com isto em liberdade, dentro da nossa casa, cuidando amorosamente dos nossos filhos e do ambiente escolar em que ele vai ser formado por muito longos anos. Imaginando que em todas as casas existe uma criança exatamente igual à nosso filho. Que merece tudo de melhor que queiramos pra ele.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.