A (des) Ordem Celestial

2 setembro 2013, Comentários 2

Pieter-Bruegel-The-Elder-Netherlandish-Proverbs-detail-2-Está bem, você hoje se encontrou com quem não quis. Naquele momento em que você não podia desviar-se, não podia fingir que não via, não podia sair dali. Que lástima! Logo com esta pessoa! Mesmo depois de tanto tempo cultivando os melhores pensamentos para acolchoar a realidade desta pessoa na sua vida e compensar os espinhos da sua memória, mesmo assim você sabe que não te faz bem encontrar-se com ela. Ai, ai. desencadeiam-se novamente centenas de lembranças ruins, de ressentimento que você gostaria de ter superado, de mágoa. Mas que coisa horrível a gente não ser senhor dos nossos sentimentos e dos nossos pensamentos. O máximo que rende disso é incômodo. A humanidade mesmo, não aproveita nada!

Mas você se encontrou com ela e agora arrasta de novo a corrente pesada que tinha largado para trás. Será possível? Como foi mesmo que você tinha conseguido largar a tal corrente. Deixar de sentir o peso, deixar de fazer força e de sofrer, enfim com as bolhas nos pés e nas mãos, com as lanhaduras pelo corpo todo. Como foi que você conseguiu largar a corrente pesada antes e por que é que só de ver esta pessoa, automaticamente você descobre as correntes pensando de novo sobre as costas, lanhando de novo sobre as cicatrizes – que agora você descobriu estavam muito frágeis sob a pele.

Mas nem deu um minuto! Numa fila, um cumprimento, um sorriso. Hipócrita? Como você pode afirmar que o sorriso dela foi hipócrita? E se a outra pessoa já conseguiu superar o ressentimento e ficou mesmo feliz de te ver? Por que você acha que ela não seria? Por que você volta anos atrás para sofrer tudo de novo?

Agora, mais grave: no fim você cobriu com um tapete a sujeira de uma relação. Você não digeriu nada nunca. Está tudo cru e aos pedaços fedendo sob o tapete e você esteve até agora passeando por cima dele!

Nossa, mas o que é realidade nisso tudo? Você viu uma pessoa na fila do banco, na fila do cinema, na fila do supermercado, na locadora, no sinaleiro. Aqueles dois segundos que são um poço fundo que resgata milhares de encontros anteriores, milhares de sorrisos, abraços, discussões, apertos de mão, choros, resgates, projetos, acordos, tudo forrado por sentimentos, pensamentos, expectativas, confiança e interpretações e soluções e finalizações e tudo o mais que aconteceu – tudo é aberto e remexido. De novo.

E agora você volta para casa com o fedor, o ferimento, o escuro do poço. Você está sozinho. A realidade foi a vista de dois segundos e você está em frangalhos. Mas que Orquestração Celestial é esta que não podia te por a um carro de distância, que não pode providenciar uma prateleira que te escondesse, um segundo a mais que te desviasse? Que raio de Universo é este que não pode te desviar o olhar, que não encomendou que você derrubasse alguma coisa e o sujeito passasse reto? Será que era difícil? Mas que Ordem Superior é essa que não pode simplesmente distrair você com uma procura corriqueira de uma chave dentro da bolsa! Um mínimo de tempo e você podia estar ainda se sentindo leve como de costume. Mas não foi assim. A realidade é outra.

E a razão para tudo isso – para o Universo ter empurrado você de volta para este ponto, para a Ordem Superior ter te armado esta falseta, para a Orquestração universal ter te posto aí é Limpeza. Claro: se não foi pelo seu suco gástrico, já bactérias por aí digeriram um tanto da matéria que te deixa tão perturbado. Tá fedendo, mas é tipo queijo, tipo kimchi, está sendo ‘pre-digerido’, ‘redigerido’ e você tem a oportunidade garantida de higienizar a sua vida e não viver o resto dela pisando em podridão. É aquele aviso: “se isso é uma conserva, tá passando do ponto. Vai vencer!”

Lave o tapete e agradeça. Areje a casa. Junte o que você puder juntar e ponha para fora. Na verdade o universo inteiro fez uma ginástica imensa para você ficar com o coração cheiroso. Respire fundo e agradeça.

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • insistimento

    Compreender mais que ser compreendido. O segredo é abraçar essas pessoas assim como o nosso passado e seguir em frente compreendendo que a vida não é (definitivamente) o que vemos ou o que queremos ver. Só nos resta abraçar.

    • Deriana Miranda

      e achando bom.