A Arte de Perder

18 fevereiro 2013, Comentários 1

efêmero

Penso que uma das coisas mais difíceis na vida é lidar com perda. Perder não é simples. Sofremos com a perda pela morte, pela mudança de rumos, porque algo se quebra. Sofremos mesmo com a perspectiva da perda, no minuto em que estamos prestes a ter algo já nos ronda a tristeza da despedida.

Isto não tem a ver somente com pessoas ou coisas. Perder tem a ver com ser obrigado a abandonar uma parte de si mesmo que se dedicava a alguma coisa antes alheia. Nossos ossos, nossa carne, nossa pele são como que constituídos das relações que temos com as coisas e as pessoas. As afinidades com nossa avó, com a casa, com certos hábitos ou cultura são na verdade parte constitutiva da pessoa que nos tornamos e  isto significa que quando perdemos de nós é arrancada uma parte e dói como dor de ferida, de amputação.

Quando nossa avó está placidamente tricotando no sofá, somos assaltados por uma dor profunda que se liga a transitoriedade das coisas. Nossa consciência da manifestação material do tempo é plena. Ouvimos o tempo roer a madeira da nossa casa como cupins, ouvimos o vento que carrega minúsculas partículas da nossa casa, percebemos o amarelecer das folhas onde escrevemos e das cartas que recebemos. Não há ninguém que não sofra todos os dias com dores de perda. A vida dura 80 anos, mas passa em um zás. A vida toda é efêmera.

Um simples esquecer-se de um chapéu, um par de luvas, do guarda-chuva consiste em um luto. As vezes pequeno, às vezes maior, se por acaso aquele par de luvas fora feito pela sua avó – e você lembra da risada dela sob a luz da janela, isto é dor. Ah, também certos momentos significam muito para nós e não queremos que eles acabem jamais – um momento em que o sol está perfeito sobre a paisagem e que você sabe que nunca mais vai testemunhar da mesma maneira.

A perda dói, há que se admitir. O curioso é que perda não é um sentimento isolado como é a saudade e a tristeza. A perda é como uma ‘síndrome’, um conjunto de sentimentos que maltratam a alma porque abriga em si também a compaixão e o amor, a vontade de virar o fluxo do tempo ao contrário e congelá-lo naquele instante precioso da perfeição.

Mas perder se relaciona com uma abertura maior de uma percepção profunda. É um raio de consciência cuja luz permanece mesmo depois do objeto da perda ter-se desvanecido. Talvez por isso a perda devesse ser mais querida. Devíamos nos ressentir menos dela porque muitas vezes é só sofrendo desta síndrome que percebemos a exata localização da nossa vida, quem somos e quais são as coisas que nos fazem estar mais vivos. Devíamos agradecer a dor da perda um pouco, porque nos ajuda a estar nos outros, a estar mais presentes durante as passagens preciosas da vida. Talvez não exista nada que nos ajude melhor a perceber o real valor das coisas do que a perda.

Para ilustrar empresto o poema de Elizabeth Bishop, ele retrata sublimemente a sensação da perda. Vai na versão original, e seguem duas traduções para que você consiga fruir melhor.

One Art

Elizabeth Bishop

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

– Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like a disaster.

Uma Certa Arte

A arte da perda é fácil de estudar:
a perda, a tantas coisas, é latente
que perdê-las nem chega a ser azar.

Perde algo a cada dia. Deixa estar:
percam-se a chave, o tempo inutilmente.
A arte da perda é fácil de abarcar.

Perde-se mais e melhor. Nome ou lugar,
destino que talvez tinhas em mente
para a viagem. Nem isto é mesmo azar.

Perdi o relógio de mamãe. E um lar
dos três que tive, o (quase) mais recente.
A arte da perda é fácil de apurar.

Duas cidades lindas. Mais: um par
de rios, uns reinos meus, um continente.
Perdi-os, mas não foi um grande azar.

Mesmo perder-te (a voz jocosa, um ar
que eu amo), isso tampouco me desmente.
A arte da perda é fácil, apesar
de parecer (Anota!) um grande azar.

BISHOP, Elizabeth. In: ASCHER, Nelson. Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.


Tradução de Paulo Henriques Britto

http://www.lunaeamigos.com.br/cultura/aartedeperder.htm
“A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério. “

Deriana Miranda

Professora há 27 anos, 13 como professora Waldorf, Deriana Miranda é licenciada em Educação Artística Artes Plásticas - FAP, Licenciada e Bacharel em Letras Português/Inglês – UFPR e Especialista em Meio Ambiente, Educação e Desenvolvimento – UFPR. Cursou o Seminário de Pedagogia Waldorf - FEWB, frequentou o Curso Livre de Ciências Naturais e Humanas: Pesquisa e desenvolvimento da Epistemologia e Prática da Pedagogia Waldorf – FEWB, e é co-fundadora do Liceu Rudolf Steiner – empreendimento social fundamentado na Pedagogia Waldorf e do Jardim Limão Rosa, uma iniciativa Waldorf, no qual é atualmente professora.

  • Ana Maria Miranda

    A Lei da Impermanência, única certeza que podemos ter de nada perder. Tudo que achamos que temos, de fato está apenas emprestado pelo Dono. Somos somente depositários.